Um novo estudo internacional, lançado em 2025, mostra que a eletrificação da frota de caminhões no Brasil é não apenas possível, mas urgentemente necessária.
O relatório “Powering Brazil’s Transition to Zero-Emission Trucking” analisa de forma inédita como a substituição dos caminhões a diesel por tecnologias de emissão zero pode reduzir emissões, melhorar a saúde pública e impulsionar a economia nacional.Produzido pelo Instituto Ar, o documento combina modelagem de emissões, análise econômica e estudos de caso internacionais para construir um roteiro estratégico rumo a um transporte de carga mais limpo, eficiente e justo no país.
Essencial (e problemático)
O estudo lembra que o Brasil é um dos países mais dependentes do transporte rodoviário do mundo, com mais de 65% das cargas movimentadas por caminhões. Essa dependência, consolidada desde a industrialização dos anos 1950, gera altos custos econômicos, infraestrutura precária e emissões crescentes.
Os caminhões pesados são hoje responsáveis por quase metade das emissões de CO₂ do setor de transportes e 80% dos óxidos de nitrogênio (NOx) em regiões metropolitanas — gases diretamente ligados a doenças respiratórias e cardiovasculares.
O custo humano da poluição
Entre 2013 e 2023, o Brasil gastou R$ 24,5 bilhões apenas em internações hospitalares associadas à poluição do ar. Esses custos recaem sobre o SUS e atingem principalmente crianças, idosos e populações de baixa renda que vivem próximas a rodovias e polos logísticos.
Durante a greve dos caminhoneiros de 2018, quando o transporte rodoviário foi paralisado por dez dias, a poluição em São Paulo caiu 30%, provando de forma empírica o peso do diesel na qualidade do ar urbano. O relatório calcula que, se essa melhora fosse permanente, o país poderia evitar mais de 4.000 mortes anuais ligadas à poluição do transporte de cargas.
Caminhos e tecnologia: o que funciona e o que não funciona
No estudo de caso de São Paulo, os pesquisadores modelaram seis cenários de substituição da frota a diesel até 2050:
| Tecnologia | Redução de GEE até 2050 | Custos evitados (saúde e ambiente) |
| Elétrico a bateria (BEV) | −46% | R$ 5 bilhões |
| Célula de combustível a hidrogênio (FCEV) | −27% | R$ 2,9 bilhões |
| Híbrido a diesel | −8% | R$ 298 milhões |
| Gás natural (GNL/GNC) | Aumenta emissões | Aumenta custos |
| Biodiesel (B100) | Aumenta emissões | Aumenta custos |
Os resultados são claros: caminhões elétricos a bateria oferecem o maior retorno ambiental e econômico, seguidos pelos veículos a hidrogênio, ainda com desafios de custo e infraestrutura.
Já o uso de biodiesel puro e gás natural (frequentemente promovidos como soluções “limpas”) mostrou-se ineficiente e até prejudicial no longo prazo, elevando emissões e custos sociais.
Bioenergia, limites e riscos
O relatório dedica uma análise detalhada à política de biocombustíveis no Brasil.
Apesar de programas como RenovaBio eCombustível do Futuro, os autores alertam que a dependência do biodiesel de soja representa um risco ambiental e econômico crescente.
Produzir biodiesel 100% até 2050 exigiria 215 milhões de hectares de terra agrícola: o equivalente a 25% do território nacional, sete vezes mais do que toda a área usada hoje para plantar arroz, trigo e feijão.
O estudo argumenta que bioenergia deve ser parte de uma transição, não o destino final, e que políticas públicas precisam priorizar a eletrificação direta e a diversificação energética, com base em fontes renováveis e tecnologias de emissão zero.
Uma transição justa liderada pelo Brasil
O relatório destaca que a eletrificação do transporte pesado pode ser um motor de reindustrialização verde, com ganhos em empregos, inovação e competitividade global.
Mas para que essa oportunidade se concretize, o Brasil precisa integrar políticas industriais, energéticas e de transporte, articulando governo, montadoras, setor elétrico e sociedade civil em torno de uma meta comum: zero emissões até meados do século.
Por que esse conteúdo importa?
O relatório “Powering Brazil’s Transition to Zero-Emission Trucking” mostra que a eletrificação é o único caminho capaz de entregar resultados ambientais, econômicos e sociais consistentes.
Cada ano de atraso custa vidas, recursos públicos e competitividade industrial.
Mas o Brasil tem todas as condições tecnológicas, energéticas e humanas para liderar essa transformação e se tornar referência global em transporte de carga sustentável.